
Por Felipe Vilhena e Rafael Arcanjo* | Foto: Ana Prado
O projeto “Bioprospecção dos microrganismos para a caracterização do potencial Biotecnológico em ambientes impactados e seu reflexo na sustentabilidade no Estuário do Rio Caeté em Bragança-PA” financiado pelo CNPq e coordenado pelo professor Rommel Ramos, do Laboratório de Simulação e Biologia Computacional, do Centro de Computação de Alto Desempenho e Inteligência Artificial/UFPA, realizou, no começo deste mês, a primeira viagem de campo para Bragança, município distante cerca de 220 km da capital do Pará. O objetivo da expedição foi coletar água em diferentes pontos do rio Caeté com a finalidade de identificar os contaminantes e os possíveis impactos nas populações e na flora local próximas à margem, sobretudo, as áreas de manguezais.
Na região amazônica, os rios são a principal fonte de subsistência para ribeirinhos, indígenas, povos tradicionais e demais populações afastadas dos centros urbanos que sofrem de inúmeros problemas de saúde pela contaminação da água, principalmente por plástico e dejetos humanos. Além disso, a região do Caeté abriga uma das maiores estruturas preservadas de mangue do mundo, agora ameaçada pela poluição humana nos arredores.
O objetivo dos pesquisadores é investigar como a poluição dos rios tem modificado os microorganismos presentes na água. “A gente quer avaliar como isso (Pressão Antropogênica) está modificando aquela comunidade de microorganismos que estão presentes naquelas amostras. Inclusive, podem gerar vários problemas relacionados à saúde humana, à saúde animal e, obviamente, podem funcionar como bioindicadores de impacto no ambiente”, compartilha Rommel. A partir desse panorama, será possível pensar na melhora da saúde do ecossistema como um todo, humanos, animais e vegetais, uma abordagem conhecida como saúde única (One Health).
Coleta em Bragança
Segundo Daralyns Macedo, pesquisadora do projeto, as coletas são divididas em diferentes etapas. “Primeiramente, partimos da definição dos pontos de coleta ao longo do rio, com o intuito de obtermos uma boa representatividade do mesmo. Posteriormente, vamos aos locais e realizamos as coletas em triplicata, utilizando um equipamento chamado de garrafa de Van Dorn para captação das amostras de água”, explica a pesquisadora.
Com as amostras em mãos, a água é filtrada usando uma membrana que, posteriormente, será usada para extrair o DNA ambiental. O material é encaminhado para sequenciamento, e com os resultados, os integrantes do projeto fazem análises computacionais para identificar as famílias e os grupos das bactérias presentes na água. É nesta etapa onde o projeto se encontra atualmente.
À primeira vista, de acordo com o coordenador Rommel Ramos, foi detectada a presença de coliformes fecais nas amostras coletadas no Rio Caeté. “A presença de coliformes na água indica uma contaminação muito pela falta de saneamento básico, porque tem detritos da população na região. A presença de coliformes na água mostra um pequeno panorama do impacto no ambiente. Só que aquelas bactérias que tu identificas por marcadores nos dão informações funcionais, pode ser que algumas bactérias façam a aquisição de genes que podem conferir resistência e torná-las potenciais emergências na saúde humana” descreve o professor.
Para ele, a análise não termina com a identificação desses microrganismos, mas sim, começa a se aprofundar. “Às vezes, se você olhar só o que é coliforme, você identifica Escherichia coli, identifica uma clostridium. Isso é importante? É. Mas não te diz tudo, que é justamente o que o estudo faz. O estudo tenta aprofundar essas análises para poder chegar num aumento dessa precisão na identificação desses patógenos humanos em geral”, aponta Rommel.
Potencial da pesquisa
Pesquisadores já apontam que os rios da Amazônia se encontram em um estado de poluição por plástico, que também é um dos focos da pesquisa no Caeté. Em entrevista para a Revista “Pesquisa Fapesp”, o professor da UFPA e oceanógrafo José Martinelli estima que mais de 182 mil toneladas de plástico são despejados na Amazônia brasileira, o que a torna a segunda bacia hidrográfica mais poluída do mundo. Trabalhos de bioprospecção como o feito no Estuário do Rio Caeté em Bragança são relevantes porque, a partir da análise das amostras, a iniciativa tem a capacidade de reconhecer com profundidade quais microrganismos estão presentes naquele corpo d’água. Com os dados obtidos, é possível identificar quais deles têm capacidade de infectar as pessoas que usam a água do rio, seja para consumo, recreação, criação animal etc.
Além do trabalho de prevenção, possibilitado pelo projeto junto às autoridades estatais, os resultados também podem auxiliar a iniciativa privada regional a economizar. “A gente tem dois grandes momentos aí. Primeiro, transferência para o Estado, de forma a balizar políticas públicas, ações do Estado e também tem transferência para iniciativa privada. Veja, esses rios na região, não só de Bragança, como outros municípios que nós já trabalhamos, eles usam essas águas para atividades econômicas como a criação de peixes”, destaca Rommel Ramos. Ao identificar as comunidades de microrganismos presentes na água, é possível prever ou mitigar problemas de saúde na população, perdas financeiras em atividades econômicas relacionadas à produção de pescados em cativeiro, por exemplo.
* Bolsistas de Comunicação do Laboratório de Comunicação e Difusão da Ciência, do CCAD-IA, sob supervisão da profa. Dra. Ana Prado.
